Protocolo IPV6 - Entrevista com Jordi Palet

Realizamos uma série de perguntas a Jordi Palet sobre a chegada da nova versão do protocolo IP.

Por Miguel Angel Alvarez - Tradução de Celeste Veiga


Publicado em: 15/4/11
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Jordi Palet Martínez é um profissional especializado em redes e telecomunicações, que trabalha na área há mais de vinte anos. Além de colaborar em numerosos foros com a publicação de artigos tecnológicos, acumulou uma importante experiência trabalhando no desenvolvimento, promoção e implantação do IPv6. Prova disso é que faz parte do IPv6 Task Force Europeu e de outros grupos de trabalho sobre IPv6.

Durante as últimas semanas tivemos o prazer de estar em contato com Jordi e ele teve a gentileza de colaborar com CriarWeb.com respondendo a uma série de perguntas sobre a chegada da nova versão do protocolo IP. Supomos que tal protocolo não será totalmente desconhecido dos leitores, dado que se tem falado muito dele nos últimos meses. No entanto,quisemos fazer algumas perguntas que nos tocam aos desenvolvedores e que cremos são de vital interesse para todos aqueles que nos dedicamos a criar ou administrar páginas web.

1- Com IPv6 pensamos que a nível interno de Internet, várias coisas mudarão. Porém, como nosso trabalho no dia -a –dia, como administradores de webs ou desenvolvedores, se verá afetado pelo novo IPv6?

Os administradores de sistemas em geral, terão que levar em conta que quando configurem, tanto o sistema operativo do servidor, quanto do servidor web (Apache, IIS, etc.), além da configuração atual para IPv4, seja realizada também a adequada configuração do IPv6.

Os desenvolvedores de websites e, em geral qualquer outra aplicação que funcione em rede, terão que se assegurar de que não utilizam endereços literais, mas as correspondentes bibliotecas de resolução DNS (as versões corretas que automaticamente reconhecem tanto IPv4 quanto IPv6), que os registros onde salvem os endereços IP resultado dessas bibliotecas são como mínimo de 128 bits, e, é claro, igualmente ao armazenar tais endereços, se for o caso, em qualquer tipo de base de dados ou sistema similar. Isso implica que os “input” dos usuários, têm de aceitar nomes em lugar de endereços. Se for o caso, devem aceitar também tanto endereços IPv4 quanto IPv6, cada um em seus possíveis correspondentes formatos. Ademais, se por qualquer motivo tiverem de processar os endereços IP, em lugar de nomes, que tenham em conta tanto os endereços IPv4 quanto os IPv6, de novo igualmente, com seus possíveis correspondentes formatos literais.

De qualquer forma, o conselho mais importante é evitar usar endereços literais, tanto IPv4 quanto IPv6, e usar sempre nomes de domínio. Além disso, para o armazenamento de endereços, devem ser consideradas as questões de privacidade e proteção de dados.

Se, ademais, se utilizam os endereços para questões de geo-localização, estatísticas, etc., teremos que levá-lo em conta também, como é lógico.

2- Agora, à parte dos webmaster e criadores de webs, os usuários normais de Internet (navegação e correio eletrônico) notarão em algo a chegada do protocolo? Dito de outra maneira, terão que mudar algo na configuração de suas máquinas?

Em geral, um usuário final não deveria notá-lo, pois o IPv6 foi desenhado para que seja transparente, e precisamente se produza uma transição. Não se trata de uma migração, como se escreve erroneamente às vezes, ou seja, não é uma ruptura com o que já funciona com IPv4, mas sim que ambos protocolos devem coexistir durante algum tempo.

Mais ainda, devido ao mecanismo de autoconfiguração do IPv6, nem sequer é necessário, em geral, nas redes dos usuários utilizar um servidor DHCP (embora se possa) e, igualmente, não se deveria precisar de nenhum tipo de configuração manual.

Esta transição e coexistência foram desenhadas para conviver com o IPv4 há anos, e isto é assim nos sistemas operativos dos usuários (desde XP com SP1 em diante, e em versões das mesmas datas ou inclusive anteriores de Mac OS X, Linux, BSD, etc., bem como das correspondentes versões “servidor”), inclusive com mecanismos de transição automáticos, como 6to4 e Teredo que permitem aos sistemas operativos, mesmo quando o ISP ainda não está preparado, utilizar IPv6 encapsulado em IPv4 (de forma automática).

Estes mecanismos automáticos funcionam perfeitamente em comunicações cliente-cliente (peer to peer), porém, em caso de se tratar de comunicações cliente-servidor, se não houver cooperação por parte do operador (não oferece suporte nativo/ pilha dupla em sua rede, ou alternativas como mecanismos de transição em sua própria rede), se produz um pequeno índice de falhas, que se estima não cheguem sequer ao 1%.

Claro, um 1% parece depreciável, mas a realidade é que em provedores de conteúdos como Google, Yahoo, Facebook, etc., o impacto na publicidade é considerável. Na verdade, no teste que se realizará no próximo dia 8 de junho, justamente para chamar a atenção dos usuários e dos ISPs deste assunto, Yahoo estimou 1.000.000 de usuários (esse 1%).

Imaginem o impacto, as chamadas de usuários aos Call Centers dos ISPs, etc. Isto será tanto uma chamada de atenção quanto um teste, porém há que considerar que poucos meses depois, já não será um teste, mas uma necessidade e os ISPs que não tenham sido colocados em funcionamento, acabarão perdendo negócios e usuários que podem ir para ISPs alternativos que ofereçam o serviço de pilha dupla (IPv4 e IPv6).

A realidade é que a implantação começou a nível de grandes operadores intercontinentais no ano de 2002, porém foi muito mais lenta do que o esperado no que se refere a ISPs nacionais. Esperemos que agora se reaja.

3- Que vantagens, além da de dispor de 340 sextilhões de novos endereços, supõe a chegada da sexta versão do protocolo de Internet? Quais os inconvenientes, no caso de não se produzir?

Obviamente o importante são os endereços, mas o fato de haver tantos endereços implica que não necessitamos NAT e, portanto, podemos utilizar segurança ponto a ponto. Além disso, implica que não só temos tantos endereços que podemos conectar à nossa rede doméstica trilhões de dispositivos, sensores, etc. (o que se costuma chamar a Internet das Coisas), mas que, inclusive, cada dispositivo, em cada interface, pode ter múltiplos endereços, para diferentes usos, seja por questões de segurança, facilidade de gestão, ou por muitas outras que surgirão. Basicamente com o IPv6 habilitamos a inovação na Internet, ao permitir uma conexão ponto-a-ponto que, além de tudo, pode ser segura.

Um detalhe importante, para esclarecer os leitores, eu não diria que se trata da sexta versão, é a versão número 6, mas não houve implantação comercial mais do que de duas versões, a 4 e a 6. Mais ainda, muitos dos outros números de versão foram utilizados apenas quando desenvolvemos protocolos antes de nos decidirmos pelo que se aceitava como standard.

Inconvenientes … bom, um muito importante e fundamental. Se não implantarmos IPv6, a rede não pode seguir crescendo. Novos usuários que queiram acessar a Internet, a partir do próximo outono, dependendo das reservas de seu ISP, não terão endereços. Não poderão ser conectados a redes atuais novos dispositivos (inclusive mais telefones móveis nas redes dos operadores). Chegaríamos a um ponto no que teríamos muitos níveis de NAT em cada acesso a Internet, e isso implicaria que cada vez mais aplicações deixariam de funcionar, e cada vez seria mais custoso desenvolver outras novas ou atualizar as existentes.

4- Durante quanto tempo se espera coexistam IPv6 e IPv4? Quanto tempo levará sua adoção definitiva?

É muito difícil predizer tempos, justamente por isso demorou a implantação massiva do IPv6. Quando nos enfrentamos com um problema como o efeito ano 2000, se há uma data, como era precisamente o caso de 31/12/2000, é fácil convencer a todos aqueles que tomam as decisões em empresas e instituições de que têm que tomar medidas. No entanto, no caso do IPv6, isto não é tão fácil, pois o esgotamento do IPv4 depende de múltiplos fatores, incluídos fatores econômicos globais, crescimento de umas ou outras regiões, crescimento da demanda de banda larga, etc.

A realidade é que a data do esgotamento do registro central, gerenciado por IANA, foi no último 3 de fevereiro e, sendo otimista, na Europa, há endereços até o final do verão em RIPE NCC, o registro da região. Por sua vez, os ISPs podem ter diferentes reservas, pois não é o mesmo um ISP que instala 10 ADSLs ao dia, que outro que instale 100 ou 1000, e isso sem contar com linhas de acesso para empresas, etc.

Apesar disso, creio que a adoção massiva de IPv6, para evitar problemas de transição, de ilhas de usuários que deixem de poder acessar determinados conteúdos e/ou serviços, deveria produzir-se, no máximo, nos próximos 12 meses. Uma vez que se alcance esse nível de implantação ao menos em 25-30% do mundo, a dinâmica da rede forçará os ISPs que restem, possivelmente lhes custará mais e o farão mais rápido, e duvido que 3-4 anos depois (ou seja um total de uns 5 anos desde agora), haja muito tráfego IPv4.

Há que ter em conta que devido às conexões peer-to-peer já funcionarem de forma automática com IPv6, já se estão produzindo tráfegos IPv6 em torno dos 30%, mas isso não quer dizer que haja 30% de implantação, é outro tipo de parâmetro.

Possivelmente nesse mesmo entorno de tempo, 4-5 anos, poderemos considerar que a implantação se tenha completado e inclusive chegar a pensar que haja tão pouco tráfego com IPv4 que possa valer a pena retirá-lo de muitas redes, mas ele acabará caindo por sua própria inércia.

5- Supomos que o maior trabalho para a adaptação a este novo protocolo terá de ser realizado pelos agentes de Internet (ISP, provedores de hosting...) Qual é o trabalho em linhas gerais que terão de realizar? E no que nos diz respeito, nossas webs podem ficar paradas ou sem serviço de maneira momentânea em algum caso? Se tivermos servidores dedicados estaremos obrigados a realizar algum tipo de ação?

Sim, realmente, os operadores de diversos tamanhos (grandes operadores, ISPs nacionais ou regionais), são aqueles que têm maior trabalho, pois ainda que em geral seus equipamentos sejam modernos, e possivelmente em uma grande porcentagem já suportem IPv6,se sua antiguidade for inferior a 4-5 anos, pode ser que tenham que substituir ou atualizar alguns, sobretudo na parte das redes de acesso.

Os usuários finais,podem seguir utilizando mecanismos de transição, embora pouco a pouco também renovarão seus CPEs (router doméstico), ou o próprio usuário, ou o ISP por questões como mudança de tecnologia (por exemplo, passar de ADSL a fibra, ou a versões mais rápidas de ADSL).

Os provedores de hosting, possivelmente não terão um custo muito alto, precisamente porque seus equipamentos costumam ser bem modernos e, inclusive, é parecida à situação das empresas, sobretudo aquelas que proporcionam conteúdos ou serviços online, nas que basicamente sua infraestrutura principal é um router de acesso a Internet.

Na maioria dos casos, dado que os equipamentos suportam IPv6, é mais um problema de formação dos engenheiros, para definir a arquitetura da rede com IPv6, os melhores mecanismos de transição segundo o caso, e ativá-lo nos equipamentos.

Com relação a nossas web, se estão alojadas em servidores com sistemas operativos modernos, não há maior problema, mas logicamente nestes casos, o ideal é que seja IPv6 nativo, coexistindo com IPv4, e no qual o próprio servidor tenha mecanismos de transição (funcionaria, mas não é ideal). Assim que o importante é que nossos conteúdos e/o servidores estejam alojados em lugares onde o acesso à Internet já seja de pilha dupla.

Digamos que se não fazemos nada, não se produz uma parada, mas é possível que parte do mundo não possa acessar nossos conteúdos e serviços, ou os acesse com falhas, demoras, etc.

6- A adoção de IPV6 está sendo levada a cabo segundo a programação prevista?Que países/regiões levam vantagem na adoção de IPv6? Que países/regiões podem sofrer um maior atraso para a adoção de IPv6?

Bom, como comentava antes, perfeito não está sendo … está com um atraso de uns 4 anos em relação ao que havíamos previsto e esse é o motivo pelo qual a coisa vai-se complicando, quanto mais esperamos, mais problemático, traumático e custoso. Estamos em um momento crítico, se agirmos agora e estivermos preparados daqui até o final de ano, seremos salvos pelo gongo.

É certo que em alguns países, sobretudo da Ásia Pacífico, há avanços mais importantes, porém, à exceção do Japão e da Coréia do Sul, talvez China, não há grandes diferenças, são avanços mais pontuais, como provedores em muitos países, que inclusive com vários milhões de usuários já têm IPv6 há meses ou mesmo há anos.

Possivelmente África, América Latina e Caribe, regiões nas quais os endereços IPv4 poderiam durar 2 anos mais, aproximadamente, confiem nisso e não vão tão rápido, mas seria um erro, pois para eles essa demora na implantação do IPv6, poderia implicar uma maior “desconexão” de certos serviços e conteúdos em outras regiões. Esperemos que percebam que ao ter mais IPv4, se começam agora com a implantação, é uma oportunidade para eles fazê-lo sem tanta pressa como nós, melhor e mais barato, mas o importante é que não deixem de fazê-lo. 7- Agora, como curiosidade e na tua opinião, veremos nós, ou nossos filhos, a chegada de IPv7 ou IPv8? Não, seguramente que não! Com certeza não porque esgotemos os endereços. Os cálculos indicam que mesmo atribuindo a cada possível usuário doméstico do planeta o correto, que é um prefixo de 48 bits (/48), ou seja, 65.535 subredes de 264 endereços cada uma, teríamos endereços para os próximos 480 anos.

Sinceramente creio que não esgotaremos esse prazo. Pode ser que em 50 ou 100 anos, surjam outras necessidades tecnológicas, que nos obrigarão a desenhar novos protocolos, que talvez sigamos chamando IP, embora no fundo penso que possivelmente não tenham nada a ver com o que é o Protocolo Internet de hoje.

Despedida e conclusão

Muito obrigado Jordi por tuas atentas respostas. É um prazer contar com tua ajuda. Oxalá estejamos todos dentro de pouco tempo contando com o IPV6 e realmente é uma tranquilidade saber que os engenheiros desta vez se anteciparam, para não nos vermos na necessidade dentro de poucos anos de fazer uma nova migração para um novo protocolo de IP.
Nos pareceram interessantes muitos pontos de tua apresentação. Realmente, não havíamos pensado em coisas tão simples como que os campos das bases de dados para armazenar IPs têm que ser ampliados de capacidade para albergar o novo formato. Como vocês, esperamos que tudo seja o menos traumático possível. Outro ponto em concreto que nos chamou a atenção é o fato de que em lugares como a América Latina os endereços IPv4 não estejam tão ao limite do colapso. Pelo que me consta, o surgimento de novos tipos de acesso a Internet, como os smartphones, está despontando naquelas terras e creio que, em pouco tempo, eles também verão como suas classes de endereços se esgotam. Oxalá nossos irmãos do Cone Sul não se descuidem e incorporem também o novo protocolo o quanto antes.
Muito obrigado de novo por tua participação em Criarweb.com e por estar trabalhando para todos nós nessa importante implantação do IPv6.





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