Por que um centro de start-ups não pode ser planejado

A fase chave da criação de uma start-up se dá quando três tipos estão trabalhando em um apartamento. O que estes três tipos necessitaram para se atrever a lançar sua própria start-up na foi infraestrutura ou dinheiro, necessitaram um referente próxi

Por Eduardo Manchón - Tradução de CRV


Publicado em: 11/10/12
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É frequente ver nos meios de comunicação que X cidade espanhola lançou uma iniciativa para criar um centro de start-ups. Na notícia se cita sistematicamente Silicon Valley como referente e o título da noticia costuma ser pouco imaginativo: O novo Silicon Valley estará em X.

Estas iniciativas artificiais têm sua origem no desconhecimento do funcionamento das start-ups e sobre a origem de Silicon Valley. Neste artigo tomo como referência o ensaio de Paul Graham How to be Silicon Valley (tradução ao castelhano) publicado em maio passado.

Embora este tema tenha sido debatido intensamente na rede em espanhol, na maioria dos casos se passou por alto o ponto crítico, que é o faz com que este três tipos em um apartamento decidam criar uma start-up.

O que faz com que surjam start-ups?

Graham comenta a fase mais importante do desenvolvimento das start-ups:

A fase chave é quando três caras estão trabalhando em um apartamento. [..]
De modo que se você quiser reproduzir Silicon Valley, o que você necessita reproduzir são esses dois ou três empreendedores sentados à volta de uma mesa de cozinha decidindo começar uma companhia.

Aqui está a chave de tudo. Entender que são 3 tipos trabalhando em condições precárias, sem dinheiro nem infraestruturas básicas, os que criam start-ups, deixa claro que um centro de start-ups não pode ser planejado a priori.

Evidentemente há outros fatores relevantes; presença de investidores, business angels, conhecimentos, etc. que ajudam a frutificar as start-ups, mas são fatores a posteriori que não explicam o surgimento. Evidentemente uma start-up cresce melhor com terreno fértil, mas se não houver semente, não há terreno fértil que dê jeito.

Os três tipos no apartamento

A mais de uma pessoa a historia dos três tipos em um apartamento parecerá pouco séria, embora na realidade seja o ingrediente básico. É justamente esta situação precária, com todas as suas conotações, que permite começar a aventura de criar uma start-up com possibilidades de sucesso.

Três tipos em um apartamento são três pessoas que não têm outras armas além da sua capacidade de trabalho, extremamente focadas e que desconhecem o significado da palavra horário de trabalho. Podem arriscar tudo porque não têm nada a perder. São jovens e não têm compromissos. Não usam camiseta por razões de estilo, é o que vestem normalmente.

É a juventude e a energia para trabalhar a horas intempestivas, o que faz com que eles tenham a coragem de se lançar . Se se tivesse mais experiência e se conhecesse a priori o esforço necessário para o projeto, ninguém lançaria uma start-up. A ignorância faz com que só se preocupem com os problemas quando eles se apresentam, o que se torna uma vantagem. Se considerassem resolver todos os problemas por antecipação nunca chegariam à fase de lançamento do projeto.

Três tipos em um apartamento podem ser dois, ou podem ser quatro, mas tem que ser uma equipe muito pequena. Em Silicon Valley costuma ser uma garagem, na Espanha seria um apartamento, embora nem precise ser um espaço comum. Já não é raro trabalhar à distancia desde casa. Na realidade o lugar de trabalho é um mero acidente, é o que está mais à mão, o que em nenhum caso costuma ser um escritório padrão.

Os três tipos costumam ser amigos porque é a melhor maneira de aguentar as pressões que um projeto assim tem. Só uma coesão muito forte faz com que se lancem juntos à aventura que supõe criar uma start-up.

Há quem minimize os três tipos em um apartamento , "bah, uns amiguinhos" quando o que deveriam é se espantar justamente por isso. No outro polo estão os que tratam de imitar esse ambiente informal e relaxado das start-ups, como se usar camiseta produzisse automaticamente melhor código e ideias brilhantes.

Inicialmente não é um problema de infraestrutura ou dinheiro

Quando você está ocupado criando algo do 0 não tem tempo de buscar investidores, nem de pensar na burocracia necessária para obter um escritório subvencionado. Os três tipos fundadores não costumam ficar muito preocupados com o lugar de trabalho, o que os preocupa é trabalhar e para isso quase qualquer lugar é bom .

O objetivo da primeira fase de uma start-up é ter um primeiro protótipo ou beta funcionando, para isso o pequeno grupo que monta a start-up não necessita mais que garantir a subsistência durante alguns meses, por volta de 6. Não é necessário muito dinheiro economizado para sobreviver esses meses utilizando as próprias equipes pessoais.

E depois? Isso é outra historia, uma coisa é o que faz as pessoas se lançarem e outra coisa como conseguir dinheiro depois para financiar a start-up. Os criadores de start-ups resolvem os problemas à medida que aparecem.

Ninguém se anima mais a montar uma start-up porque sabe que há espaço para escritório próximo subvencionado, nem X ajuda do governo. Não é a maneira de funcionar nem de entender o mundo destes três tipos, nem do funcionamento de uma start-up no começo.

Então , o que faz com que estes três tipos se atrevam a se lançar? O que requerem os potenciais empreendedores para se lançar a criar seu próprio projeto não é dinheiro, nem infraestrutura, se trata de outra coisa, um referente.

O referente, a semente inicial

Quando você conhece um criador de start-up que teve sucesso quase automaticamente te passa pela cabeça a ideia de você se lançar também com seu próprio projeto.

No mundo offline muitos autônomos e profissionais liberais criam seus projetos do nada com uma impressionante dose de trabalho e esforço. Lojas, cabeleireiros, clínicas, restaurantes ou assessorias requerem tanto trabalho como uma start-up para arrancar. A grande diferença é que estas iniciativas na Espanha têm referentes em qualquer parte e as start-ups não.

Conhecer em primeira pessoa alguém que teve sucesso, evita a mitificação do empreendedor de sucesso que tanto agrada aos meios de comunicação. Só quando o referente é próximo e os potenciais empreendedores o percebem como tal, é que o referente serve. Se o referente é algo distante, criado a milhares de quilômetros por uns tipos qualificados como gênios pelos meios e, além disso, em outro idioma, não se produz o efeito referente.

Larry Page, Sergei Brin, Bill Gates ou Steve Jobs estão todos na categoria de semideuses-gênios para os meios de comunicação. É difícil para um empreendedor inspirar-se neles. Nas antípodas destes casos é conhecer historias como a de Ricardo Gallir, um professor de universidade que criou Menéame. Ricardo conta em seu blog com todos os detalhes o dia a dia do projeto, seus problemas, o esforço que foi requerido.... Referentes como o de Gallir são os que animam as pessoas na Espanha a lançar seus projetos, não as historias sobre Google ou Amazon. Basta ver o número de clones de Meneame que existem, mais de 200, muitos deles em espanhol.

Evidentemente não é fácil ter sucesso com uma start-up, mas não é preciso ser um herói, nem se exige um alinhamento de planetas. Ter sucesso com uma start-up poderia ser algo muito mais comum do que parece. Nota: Esclareço que a definição de sucesso não inclui forçosamente ser o próximo Youtube ou esperar que a start-up seja comprada por muitos milhões, há mil definições de sucesso e mil maneiras diferentes de alcançá-lo.

O crescimento orgânico das start-ups

Um centro de start-ups nasce em volta da start-up inicial, a primeira, a que serve de semente inicial e referente a outros.

Graham comenta que em Silicon Valley a empresa Shockley Semiconductor foi quem começou tudo. Inclusive hoje m dia toda a rede de relações e investidores em Silicon Valley aparece ligada à semente inicial. Dos trabalhadores de Shockley Semiconductor, uns fundaram novas start-ups que agora são multinacionais, outros se converteram em investidores, etc. Resumindo criaram todo o ecosistema que permite que as start-ups floresçam em Silicon Valley.

Uma semente que cresce e finalmente floresce, cria novas sementes e assim sucessivamente. Assim é o crescimento orgânico de um centro de start-ups e por isso na é possível planejá-lo artificialmente.

Embora em uma escala muito menor, gostaria de citar os casos de Espanha que conheço que tem funcionado como sementes iniciais:

- O caso de Loquo.com, depois de sua sua exitosa venda a eBay se converteu em um pequeno viveiro de novos projetos. Os membros da equipe nos lançamos a nossas próprias aventuras, Joaquín Cuenca levava Loquo Paris, José Florido levava Loquo Málaga e eu levava Loquo Madrid, agora estamos os três em Panoramio.com. Manuel González Noriega e Ramón Pravia que levavam Loquo Oviedo-Gijón tentaram com Linkja. Andre Ribeirinho que levava Loquo Lisboa está a ponto de lançar seu projeto Adegga.com (uma rede social sobre vinhos). Tampouco creio casual que Oscar Frías de Trabber (um buscador de voos) seja amigo de Ubaldo Huerta, o fundador de Loquo. Loquo foi vendido relativamente logo e não deu tempo de gerar um grande efeito de semente, mas é um exemplo ilustrativo.

- No caso da mash-up Tagzania criada pelas pessoas de Codesyntax no País Vasco, mesmo sendo um projeto muito jovem, tem tido muita influencia e um efeito semente grande nos desenvolvedores espanhóis. Não é casualidade que tenham tantas mash-ups com Google Maps na internet espanhola (mais de 50 se apresentaram no concurso de Google Maps Espanha) e que varias delas estejam bem situadas a nível internacional, algo que contrasta muito com a seca tradicional de iniciativas. É muito importante que exista essa primeira start-up que quebra o gelo e o faça bem para abrir caminho ao resto das pessoas.

Não é minha intenção afirmar que todos os projetos nascidos destas sementes iniciais vão ter sucesso ou sejam maravilhosos, de jeito nenhum. Meu objetivo é demonstrar como ter um referente próximo, que não esteja a milhares de quilômetros, feito por gente que você conhece e no seu idioma, é o que faz com que os desenvolvedores se atrevam a se lançar com seus próprios projetos.

Um núcleo geográfico de start-ups

Não creio na possibilidade de que surjam centros de start-up situados geograficamente em um lugar concreto da Espanha. Que haja um núcleo físico potente requer muitos fatores ao mesmo tempo que custa imaginar coincidindo em algum lugar da Espanha a curto ou médio prazo.

De qualquer modo, uma vez que as ferramentas de trabalho a distancia abrem perspectivas interessantes, na Espanha imagino mais facilmente um panorama de start-ups distribuídas por todo o território, porém com intensas relações entre elas, do que localizadas em um núcleo geográfico determinado.

A universidade

Paul Graham fala de universidades excelentes e elitistas como lugares de onde saem as pessoas que logo criam start-ups. Embora pense que a qualidade dos centros seja importante, não creio que seja indispensável uma universidade cheia de prêmios Nobel para que apareçam start-ups. Nem todas as start-ups têm que inventar o chip de silício ou revolucionar totalmente o mundo dos buscadores.

Em minha opinião muitas start-ups são criadas à volta da universidade simplesmente porque as pessoas em idade de criar start-ups e com os conhecimentos necessários, costuma estar nelas nessa época da vida. É onde se fazem os amigos com os que se monta a start-up depois. Vejo isso mais como uma correlação do que uma relação de causa e efeito.

Isto ao menos permite uma conclusão positiva, as universidades espanholas embora não tenham muitos prêmios Nobel (na realidade, nenhum) sim poderiam ser lugares em torno do qual se aglutinassem start-ups simplesmente porque as pessoas em com idade para criá-las está ali.

Ainda que eu gostasse que fosse assim, este enfoque tem um inconveniente, na Espanha tudo está atrasado temporalmente. Na maioria da Europa e dos Estados Unidos aos 18 anos a maioria das pessoas se torna independente e assume responsabilidades, o que faz com que comece a pensar em projetos pessoais antes. Na Espanha a maioria das pessoas vive na casa dos pais até os 25 anos como mínimo. Por isso creio que o mais provável na Espanha é que alguém monte sua start-up após sua primeira ou segunda experiência laboral, por volta dos 26-28 anos, é então quando é mais provável que entre em contacto com referentes e se anime a montar a sua.

Las ayudas de administraciones públicas

Ninguém decide se lançar, nem trabalha mais duro pelo fato da prefeitura montar um lugar que se chame distrito Barcelona 22@ onde disponha de um escritório subvencionado. Se voltarmos ao ponto inicial é fácil entender a razão: para os três tipos dá igual o lugar e não têm tempo nem vontade para burocracia.

Uma administração pública é a antítese de uma start-up, seus procedimentos não têm nada a ver com conseguir que as pessoas empreendam. Isto não é crítica negativa à administração, não poderia funcionar de outro modo.

As ajudas da administração dificilmente servem às start-ups porque por sua própria natureza estas ajudas necessitam de controle e obrigações para evitar o abuso. No entanto precisamente o que busca uma start-up é estar livre de obrigações e ter a máxima margem de manobra. Por isso aqueles que investem em uma start-up são chamados "business angels", porque realmente são "anjos" que arriscam seu dinheiro em um projeto totalmente incerto (embora não costume ser dinheiro exagerado) por uma participação minoritária (não costuma alcançar 10%). Não é casualidade que os business angels sejam sempre antigos empreendedores de start-ups com sucesso que se guiam pela intuição e por sua experiência pessoal. Se não conhecer as start-ups por dentro, para um investidor pode parecer uma loucura investir em uma delas. Nada mais distante de como funciona uma administração pública.

Quando obter uma ajuda te obriga a contribuir como autônomo X meses, a ajuda simplesmente serve para pagar a cota e não traz nenhuma vantagem real para a start-up. Na Espanha você teria o seguro médico igualmente (é universal) e com 26 anos não se pensa em contribuir para a pensão de aposentadoria. Talvez estas subvenções possam ser boas para outros tipos de projetos, mas para uma start-up na fase inicial e sem faturamento, simplesmente é mais interessante não existir legalmente.

Igualmente os créditos brandos para adquirir equipamento não ajudam uma start-up. Os tres tipos já possuem seus próprios equipamentos e o último que querem é endividar-se mesmo com juros vantajosos.

Certamente tenho certeza de que há mais ajudas e variantes, mas também estou seguro de que todas têm sua contrapartida e obrigação para evitar que haja abusos, não pode ser de outro modo sendo ajudas públicas. O problema é que são justamente as obrigações geradas o que torna as ajudas pouco atrativas para os fundadores de start-ups.

As empresas grandes

Uma start-up é por definição uma empresa pequena, uma vez que cresce demasiado automaticamente deixa de ser uma start-up. É na fase inicial de start-up que ela gera as futuras sementes. Quando uma empresa tem 4.000 trabalhadores deixa de ser um referente porque já não funciona como uma start-up.

Tal e como comenta Graham em seu artigo, o que torna especial o Sillicon Valley, não é que Apple, Google, Yahoo, e outros tenham ali suas sedes, mas sim que estas empresas nasceram ali e tiveram sua fase de start-up ali.

Com frequencia as administrações públicas tratam de atrair empresas grandes que trabalham em novas tecnologias, no entanto essas empresas nem são start-ups nem vão gerar start-ups à sua volta porque nem servem de referentes (alguém se veria refletido em uma empresa de 5.000 pessoas?), nem são sementes.

Excessos de Paul Graham

Embora esteja de acordo com a maioria de argumentos de Paul Graham em seu ensaio (tradução ao castelhano), creio que alguns deles chiam em excesso, são muito forçados.

Chegar a extremos como explicar o surgimento das start-ups pelo tipo de gente que vive na cidade (sua liberalidade) ou a importância de ter um centro histórico intacto é, em minha opinião, chegar demasiado longe tentando que absolutamente tudo se amolde ao caso de Silicon Valley e São Francisco.






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